O que fazer quando se adora uma pessoa e ela não acredita? Você pode se ajoelhar, cair de quatro, jurar, cortar os pulsos, atravessar o oceano a nado, mas não adianta: para cada um desses atos ela vai encontrar uma razão - Para dizer que é tudo mentira, e que você está, mais uma vez, levando ela na conversa.
E o pior é que não está. É a tal da rejeição, essa desgraça que existe dentro de todos nós e nos faz achar que ninguém gosta da gente o suficiente, ou melhor: como a gente precisa e merece ser gostado. No mínimo como Deus: sobre todas as coisas.
Começando pelo básico: alguém acha que é - ou foi - amado suficiente pelo pai e pela mãe? Claro que não. E aquele dia em que os dois saíram para jantar fora e ir ao cinema e você, com cinco anos, queria que eles ficassem ao seu lado, contando uma história. Há prova maior que eles jamais gostaram de você, nem um pouquinho? E quando os pais se separaram e um deles se apaixonou, o namoro não deu certo e pintou aquela tristeza; e alguém pode conversar com o filho pequeno, carinhosamente, dando toda atenção do mundo, numa situação dessas? Me responda: pode? E quando, no auge da paixão, pinta o convite para aquele fim de semana de sonho num veleiro, e você propõe trocar o fim de semana que ia passar com seu filho; ele acha - e sente - o quê? Que é mais rejeitado e abandonado do que menino de rua. E vai tentar explicar: ele não vai entender nunca.
Até aí, tudo normal. Só que essas crianças crescem, se casam, têm seus filhos, se separam, se apaixonam várias vezes, e nem quando agem com seus filhos exatamente como você já agiu com ele - é da vida - , nem assim ele compreende. Aos 50, 60 anos, ele continua na análise; se queixando de ter sido rejeitado, como se fosse um bebê de colo, oh vida complicada.
Para um filho, a mãe deve amá-lo sobre todas as coisas; até aí, tudo normal. Só que, já que as coisas não são asim tão simples, ai daquela que diz uma noite que não dá para ouvir seus dramas amorosos - mais um - porque precisa entregar aquele trabalho no dia seguinte de manhã. Se disser que marcou um cinema com um amigo, aí é a tragédia - grega - total. E haja análise. E por que razão - por que - o analista não abre mão os olhos daquele homão para mostrar que a vida está passando e ele anda atormentado, pensando no que a mãe fez com ele tinha um ano, dois, três, e - na sua cabeça - continua fazendo até hoje, isto é: mais indiferente a ele do que a um cachorro vira-lata.
Ah, Freud, não dava para ser mais simplesinho? Mostrar que tudo faz parte, e que a vida deve ser vivida e aproveitada a cada segundo, e que a busca da felicidade é muito mais importante do que ficar chafurcando no passado porque aquele dia sua mãe te olhou atravessado. E se olhou? Quem não olha, as vezes?
Ah, quanto tempo perdido, quantos momentos que podiam ter sido tão ricos, em que màe e filho pudessem dizer francamente "ah, naquele dia eu quase te matei de tanta raiva" - e darem uma boa risada com a lembrança desse dia. Ou vai me dizer que isso nunca aconteceu, de mãe para filho e do filho para mãe? E todos os momentos, jamais ditos, em que a mãe amou - e ama - esse filho loucamente, mais que qualquer coisa na vida, e que depois que ele cresceu nunca mais disse, porque não faz parte de nossa educação, de nossa cultura, fazer declaração de amor a filho grande, até porque ele é o primeiro a não querer ouvir, depois que cresce. Que mundo mais louco.
Ah, se a gente pudesse botar eles no colo quando desconfia que eles estão tristes, e abraçar, apertar, cobrir de de beijos, como quando eram pequenos, e eles acabavam as gargalhadas ( e nós também ). Mas agora eles são grandes, enormes, e Freud não aconselha. Agora os problemas devem ser resolvidos com diálogo - o que acaba não resolvendo nada.
Ah, se eles soubessem; ah, se a gente conseguisse dizer. Se isso acontecesse dava para ir no Aurélio e apagar, para sempre a palavra Rejeição.
Do dicionário só não. Da nossas mentes, e sobretudo dos nossos corações.
Danuza Leão
Texto extaido do jornal do Brasil
quarta-feira, julho 02, 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário